“Quanto mais fazia, mais me apaixonava” - Plataforma Media

“Quanto mais fazia, mais me apaixonava”

Betty Fung tornou o sonho realidade há cinco anos. Antes disso, a vida não passava pela cozinha profissional. Mas o que é hoje deve-se muito à paixão que a tia, também apaixonada pela gastronomia, lhe transmitiu. “Ia-me buscar à escola para ir comer fora. Levava-me a cafés, hotéis e foi aí que comecei, realmente a gostar e frequentar esses espaços com regularidade, sobretudo por causa da apresentação da comida. Desde pequena que tenho essa paixão pela comida e ficava ansiosa para que a minha tia me fosse buscar”, relata. 

Na sexta classe, teve a sorte de ter uma biblioteca mesmo à frente da escola, onde “ia sempre procurar livros de culinária.” A primeira experiência a cozinhar foi um prato de sushi. 

“Depois de enrolar e cortar, dava aos meus pais para experimentarem. Pelas reações, era bom. Ainda hoje me lembro do sabor”, lembra. 

O interesse pela cozinha crescia. “Quanto mais fazia, mais me apaixonava”, diz. Até que no secundário decide aprofundar e profissionalizar essa paixão. “Fiz dois cursos de culinária, um de bolos e outro na escola que frequentava, onde aprendi várias técnicas e métodos de confeção”, continua. 

No entanto, o custo de vida na altura empurrou Betty para outro caminho. “Quando acabei o secundário, entrei na universidade e nunca mais segui o curso de culinária”, recorda. 

Mas, quando o sonho comanda a vida, é difícil fugir ao destino. “Já na universidade, trabalhava ao mesmo tempo no aeroporto de Macau. Na internet e na televisão, continuava a ver programas relacionados com culinária. Cozinhava para os meus pais, amigos, perguntava-lhes a opinião, o que podia melhorar e foi assim que fui aperfeiçoando a minha identidade na cozinha”, afirma. 

Betty, apesar de afastada dessa realidade, confessa que tinha um sonho por realizar… “Sonhava abrir um café e, para o conseguir, comecei a poupar o dinheiro que podia”, refere. 

A noção de não ter técnica e conhecimento exigidos para ter sucesso na área levou-a a “tirar um curso de culinária em França”, para ultrapassar essas limitações. 

Esta nova fase da vida revelou-se difícil, porque era preciso muito empenho. Lembra um workshop com um chef do restaurante “Le Cordon Bleu”. “Quis aproveitar essas oportunidades para aprender. Pessoalmente pensava que seria fácil e simples”. Mas a realidade ficou aquém das expetativas. 

“Primeiro é a teoria, depois a prática e, nesta última, ninguém te ajuda. Tive de me desenrascar. Tínhamos 12 horas diárias de estudo e todas estas vertentes ajudaram-me a expandir conhecimentos”, recorda. 

Mas, para atingir o nível que desejava, acaba por reconhecer que as aulas eram insuficientes. “Naquela altura gostava imenso de ir, todas as semanas, para diferentes restaurantes com estrelas Michelin e outros sem esse galardão, mas que via como espaços de qualidade”, assinala. 

A forma como a vida da chef se desenrola à volta desta paixão é um exemplo. Diz que nem nas férias consegue manter distanciamento da atividade profissional. “Muitas pessoas vão de férias para se divertirem. No meu caso é mais para ter uma experiência gastronómica. Quando vou a diferentes restaurantes tiro fotos, registo tudo e quando volto, modifico e recrio o que vi. Também trago várias vezes os ingredientes de origem para confecionar aqui o que me inspira ou o que aprendo durante as viagens”, enfatiza. 

“A melhor lembrança é quando um cliente, depois de provar a minha comida, se lembra para sempre”, salienta a chef. O tal sentimento de nostalgia que Betty ainda diz manter pelos sabores dos primeiros rolos de sushi. 

No meio de tantas influências e culturas gastronómicas, a chef mantém-se firme relativamente à comida local e espera que, com o trabalho, possa contribuir para a respetiva dinamização, não só numa ótica regional, mas também mundial. 

“Apesar de diferentes tendências e direções da gastronomia, uma mãe passar para os filhos a história e a cultura, os sabores da comida, são o melhor que se pode dar para manter as tradições. É algo que nunca se esquece, apesar do grande desenvolvimento e globalização que temos vindo a testemunhar pelo mundo fora. Defendo que a comida típica, local, tem de continuar a existir”, acentua. 

E conclui: “É um traço muito importante no que somos e no que representamos enquanto povo. Faço parte da associação gastronómica da França, como representante em Macau. O meu papel é trocar ideias de culinária com diferentes países. Tento levar a nossa culinária para várias partes do mundo. Ao fazê-lo, espero contribuir para o desenvolvimento e melhoria da gastronomia local, para que as gerações futuras tenham maior conhecimento do que produzimos internamente e para que um dia possam manter as tradições vivas, para as darem a conhecer”. 

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