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Salve-se quem puder

Ainda o vírus levava o nome de coronavírus e pandemia era uma palavra que nos remetia para o século passado e já o Papa Francisco fazia o pedido para os empresários do mundo não despedirem funcionários.

Homem avisado e com uma história de vida que lhe dá o lastro suficiente para saber que os mais frágeis são os primeiros a sofrer – deixo aqui a sugestão, para quem ainda não viu, que assistam ao filme “Os Dois Papas”, Francisco lançou aquele alerta – que muitos até consideraram extemporâneo – para que aos primeiros apertões do confinamento a primeira reação não fosse, digamos, reativa. O Papa previa que o mundo ia parar, a economia ia retrair e o desemprego seria o mais certo.

No dia 23 de março de 2020, o Papa dizia que a luta contra a pandemia não pode assentar no “salve-se quem puder”.

Volvidos seis meses, é com supresa, confesso, que recebo a notícia de que o Santuário de Fátima, em Portugal, está a levar a cabo um plano de reestruturação que prevê o despedimento de até 50 dos seus 308 trabalhadores.

E qual a justificação para tal? “Desde o início da pandemia que verificámos no Santuário uma diminuição muito expressiva do número de peregrinos, sobretudo estrangeiros. Entre os dias 13 de março e 30 de maio, o Santuário não teve peregrinos e desde que desconfinámos, retomando as celebrações com a presença de peregrinos, a verdade é que tivemos quebras em junho, julho e agosto nos grupos organizados, sobretudo grupos estrangeiros, superiores a 95%”, indica a porta-voz do espaço de culto por excelência da Igreja católica.

Basta mudar a palavra “Santuário” para ela se aplicar à declaração de uma empresa de calçado, peças de automóveis, restaurante – ou a atividade que mais vos aprouver – que pretenda efetuar um processo de despedimento.

A luta contra a pandemia não se resume a vacinas, a confinamentos.

A luta contra a pandemia só será ganha quando todos percebermos que nada será igual nas nossas vidas, nos nossos negócios, nos nosso trabalhos.

A luta contra a pandemia só será ganha quando não assentar no “salve-se quem puder”.

O Papa Francisco disse-o em março. Ninguém ouviu. Nem mesmo os que lhe devem obediência.

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