Memória de um futuro perfeito - Plataforma Media

Memória de um futuro perfeito

Durante o século XX o ano 2000 soava mágico, era o pote de ouro no fim de um arco-íris de sonhos realizáveis; bastava mencioná-lo para sentirmos Peta Zetas a estalar no palato. Sendo 2000 o limite psicológico de uma contagem desde logo fantástica, o filme “2001 Odisseia no Espaço” lançado no ano anterior ao Homem pôr o pé na Lua e à qual não mais voltaria, situava-se para lá da fronteira materialmente experimentável, era uma espécie de portal para o desconhecido. No pós-guerra fomos cantando e rindo, compelidos a consumir, a explorar o espaço exterior, a buscar fora de nós as respostas para os nossos problemas. Agora, esmagados pela realidade, perdemos a inocência, estamos demasiado cansados e cínicos para acreditar em amanhãs mais felizes. Vivemos encarcerados, isolados, o único campo livre (por enquanto) é virtual, e crise após crise somos castigados por termos gasto demais, termo-nos misturado demais, sonhado demais. Apesar das visões globais disponíveis preferimos nutrir convicções que fomentam mais limites e fracturas. Bem lecionados, reproduzimos o que nos inculcaram… Os astronautas não vão além da órbita da Terra, o Concorde que fazia uma viagem em metade do tempo dos aviões actuais foi desactivado, aliás já nem viajamos, o mundo está na ponta dos dedos, os sabores exóticos disseminaram-se por vários alimentos e viemos a saber que são apenas ésteres, uns Es quaisquer que servem também para aromatizar produtos de limpeza. O deslumbramento propiciado pela modernidade esvaiu-se no pós-modernismo perante a difícil sustentabilidade, a percepção de que nada é perfeito ou duradouro. Se ainda há admiração ela resulta da paulatina destruição do passado, de mitos tidos por verdades, de verdades que deixaram de o ser. Sem notarmos fomos reduzindo a dimensão espaço-temporal da nossa existência até à deprimente mesquinhez de hoje, lutando pela pura sobrevivência, sem história nem planos de futuro. Neste clima tóxico a pandemia  contribui igualmente para a “desconcordia” geral: recentemente começou a corrida às variantes regionais do vírus, e o Reino Unido que entretanto possui a sua, fechou as portas a Portugal por ser uma plataforma de transmissão da variante brasileira. Sempre houve doenças de rico e doenças de pobre, e o covid brasileiro possivelmente, não sei, conterá peçonha de terceiro mundo. Aguardo curioso para ver o que fará o Boris quando lhe caírem no colo as variantes paquistanesa e indiana.   

O confinamento de Janeiro restringe toda a actividade excepto a estritamente necessária para aparecer vivo todos os dias. Nunca fizemos tantas listas de supermercado, e uma espantosa porção dos nossos pensamentos ou discussões centram-se em avaliar se o Pingo Doce tem preços mais baixos que o Continente. Portugal é uma democracia e nas democracias impera a vontade da maioria, legitimando governos. Respaldado na vontade dessa maioria, o governo define o que é prioritário e portanto, cortes de cabelo, venda de roupa, espectáculos, e venda de livros, proibidos; futebol e Fátima, permitidos, são o nosso fado. Para uns poucos isto pode configurar uma trevosa distopia, mas quem nos últimos anos ainda frequentava, por exemplo, o teatro ou comprava livros? Proibi-los de serem vendidos inclusivamente nos supermercados é… lógico, não provoca manifestações, e duvido que a minoria consumidora de livros lá encontre oferta para si. A cultura, aquilo que nos permite avaliar donde viemos, quem somos e para onde vamos, lançando debates críticos sobre vias alternativas, no fundo o garante da sobrevivência a longo prazo, provou ser um vírus mais temível que o covid 19, erradicámo-lo. Na verdade há muito que se programara a sua obsolescência, subtraindo aos poucos o espírito crítico das nossas vidas, particularmente do ensino, promovendo resultados imediatos, desinvestindo a longo prazo, usando e modificando o ambiente natural numa atitude reducionista, predatória. Deste modo asseveramos a nossa condenação porque o vírus que hipotecará o futuro está entre nós há muito e não se chama covid. 

Habituados à feliz inconsciência lutamos desesperadamente para manter o que temos, uma vez que o maior medo da humanidade é o da perda. Muitos reclamam que não têm nada, mas quando são alvo de uma tragédia dizem que perderam tudo. No âmago sabemos que de facto não temos nada, nem os faraós tiveram, e quando pretendemos sustentar padrões inúteis percebendo que não controlamos os acontecimentos, resvalamos para excessos e desastres. Actualmente respira-se um ar de pré-guerra, as vésperas de confinamento total são um género de última ceia paga com cartão de crédito já em dívida; perdido por cem, perdido por mil… No dia seguinte, a pessoa ao lado na cama afinal tem defeitos, os números de mortos aumentaram quer tivéssemos ou não ido à ceia, o plástico de cores alegres revelou-se um pesadelo, os verões de cálidas memórias tornaram-se insuportáveis no presente e são um péssimo sintoma de doença do planeta, as comédias perderam a graça, a ficção deixou de fazer sonhar. Mas afinal ríamos de quê, sonhávamos com quê? Seria inconsciência? Talvez, e olhando para trás verificamos que a inconsciência nos dava a sensação de sermos felizes. O pior para os nascidos antes de 2020 é compreender que de repente o mundo ficou velho, cônscio da sua fragilidade, e… infeliz. Associamos a felicidade à inconsciência, todavia não terá que ser assim, há muitos jeitos de ser feliz. 

Os que estão a nascer construirão o seu modelo de felicidade em moldes diferentes dos nossos, desenvolvendo os sonhos em função do seu presente. A infelicidade é nossa, não deles, nós é que ficámos aprisionados entre dois universos, eles só conhecem um. Tenho mais nostalgia do futuro que não cheguei a viver, do que do passado que não posso reviver. Supondo que um dia as nossas memórias esfumar-se-ão connosco e permaneceremos tão mortos como os faraós, até chegar aí qualquer pessoa tem hipótese de construir memórias felizes; basta contribuir para a sua e a educação das novas gerações na consciência dos erros cometidos, fazendo e ensinando-os a fazer um juízo crítico sobre si próprios e a sociedade, encarando os momentos de dificuldade como uma oportunidade de crescer. Por muito que nos custe admitir, o mundo continua sem a nossa presença, à vista disso não há melhor alternativa que adoptar uma consciência ampla, responsável, a atitude que consequentemente esvazia o egoísmo, possibilitando deixar uma Terra melhor do que a que nos foi dada. Haverá melhor legado? Eu partia feliz.

*Músico e embaixador do Plataforma

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