Vida suspensa - Plataforma Media

Vida suspensa

Diário estelar 5.2224: por enquanto o único lugar seguro para um humano estar é em órbita, na Estação Espacial Internacional.

Continuo sem entender o que levou os super-heróis a desapareceram de circulação ao invés de ajudarem na pandemia. Eu também desapareci, aproveitando o convite do meu amigo ET Neoch para ficar na sua casa em Titã, um satélite de Saturno. O tempo está uma bosta. Hoje caíram aguaceiros que aqui são de nitrogénio e metano; sim metano, caro diário, por isso afirmei que o tempo está uma bosta, é esse o cheiro no ar.

Devido à atmosfera tóxica tenho de andar sempre de máscara e foi assim que estive a tarde toda a jogar “Hybrid Invaders” fechado no quarto, o que me recordou a minha inútil juventude. Nessa época sonhava como seria bom se o lazer gerasse rendimento, ressarcindo o desinvestimento no estudo. Imagina diário, passar a vida jogar video-jogos e ser pago por isso? Uau, que fixe! A minha mãe a chegar ao quarto e a dizer-me “estiveste a jogar até às 6 da manhã? Boa filho, obrigada por debaixo deste tecto seres o maior provedor do pão nosso de cada dia. Queres que te faça umas torradinhas?” Depois virava-se para o meu pai: “este miúdo é um autêntico guerreiro de joystick em punho, ainda nos vai encher de orgulho no futuro”. Os adolescentes devem ser uma espécie de felinos, uma vez que este é o género de discurso que o meu gato gostaria de ouvir quando traz pássaros mortos para casa. 

Entretanto despertei do devaneio porque quem entrou pelo quarto adentro foi a filha do Neoch. Fiquei embaraçado pois sinto-a atraída por mim e, não querendo ofender o meu amigo, ela lembra-me um velociraptor.

A noite passada apanhámos todos uma bebedeira e o pivete a gregório dentro da máscara é insuportável, vomitei mais duas vezes só por causa do cheiro. Aliás julgo que a atracção da rapariga se deve ao meu odor a vómito. Ele há cada uma… Vinha num robe translúcido onde se divisavam as escamas, e de penas eriçadas saltou para cima de mim; se eu não lhe dou dois estalos comia-me ali na cama. A sério, literalmente devorava-me!

Salvo pelo gong, o Neoch bateu à porta do quarto e perguntou-me se não queria acompanhá-lo para conhecer o seu ambiente de trabalho. Aceitei imediatamente, livra, ainda vi de soslaio a filha a esticar a língua e a engolir uma moskva (um insecto de exoesqueleto quitinoso comum em Titã). No trabalho o Neoch apresentou-me aos colegas da nave espacial Intrepid.

Minutos mais tarde receberam uma chamada urgente do comando estelar para se dirigirem ao planetóide Ma-ka, um misterioso monstro dizimara metade da população de colonos. O Neoch estava de serviço à secretaria, o comandante da Intrepid convidou-me a seguir na nave, achei que seria giro e fui. Quando lá chegámos o comandante sentenciou: “vamo-nos separar em duas equipas: eu fico com a miss Camila, o Jackson, e o O’Neil; a outra equipa é o Rodriguez, o Chan, o Popov e o Melo”.

Ui, espera lá: eu conheço os elementos do outro grupo, aparecem em todos os episódios, mas nunca vi na série os do meu grupo. Convidados especiais? Bem, passar dias a jogar pode não ter suprido o meu sustento, mas a atenção às séries de ficção científica talvez me tenha salvo a vida. Aquela segmentação cheirava a esturro e disse logo ao comandante: “hey hey, hold your horses ó chefe, ‘tá a gozar? Rodriguez, Chan, Popov e Melo? Isso é o quê, a brigada da carne pra canhão? O senhor sabe muito bem que os Rodriguez atraem merda, ou julga que eu nasci ontem? Quer que lhe detalhe o que vai suceder?

É o nosso grupo que encontra o monstro, o latino começa aos gritos, em pânico desata a disparar aleatoriamente matando o chinês que morre sem perceber o que lhe aconteceu, na mesma altura o russo atira-se estupidamente ao monstro e é desfeito em pedaços; no fim o monstro estica o tentáculo, fisga o latino que já se punha em fuga, e fulmina-o. Eu faço o quê, digo bch bch bichano? Nã, nã, quero ficar no grupo do comandante anglófono branco, a mulher e o black: há anos que as cotas de género e étnicas impedem que esses dois morram cedo.

Fogo, porque é que o O’Neil não troca comigo?” O comandante ouviu-me de olhos esbugalhados, porém acedeu. Olha diário, parece que eu tinha lido o guião: não é que se desenrolou tudo tal e qual eu descrevera? Bem, o sacana do irlandês teve sorte, safou-se mas ligado à máquina e cheio de cicatrizes. Na viagem de regresso apanhámos uma valente chuva de meteoritos, a Intrepid trepidava como a Arca no dilúvio, o comandante chamava-me para eu activar os estabilizadores (sei lá eu o que são, ou que botão os activa) e… 

Acordei. Era a minha mulher que me chamava e abanava o braço, pedindo-me para eu ir para a cama. Só aí tive consciência que estava deitado no sofá da sala a ver as desgraças do caos pandémico e adormeci a assistir à noite eleitoral.

Estremunhado soltou-se-me a redundância: “quem ganhou?” Ela retrucou “quem havia de ser? O bicho, não viste já o filme?” É verdade, não é por ver duas vezes o mesmo filme que o final vai ser diferente.

Conforme dizia o grande Millôr Fernandes, “a vida é como escrever sem borracha”. Antes que o pesadelo da realidade voltasse a atacar em força fui directo para a cama, obriguei-me a dormir, e se pudesse só acordava daqui a 365 anos.

Diário estelar 5.2224: por enquanto o único lugar seguro para um humano estar é em órbita, na Estaç…

*Músico e embaixador do Plataforma

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