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Quo vadis?

Isolado por reinos inimigos a norte e leste, Portugal encarou o mar a sul e oeste como uma oportunidade de enriquecer fugindo à opressão, iniciando no século XV o primeiro império global. Fomos à América, fomos os primeiros europeus a dobrar África, a chegar à Índia, a Singapura, à China, ao Japão, e há quem sustente que aportámos na Austrália.

Por todo o lado deixámos marcas da nossa presença, no mais das vezes opressora (de que outra maneira poderia ser?) conseguindo manter um império além de 500 anos; o III Reich durou 12. Fomos os primeiros europeus a chegar à Ásia e os últimos a partir em 1999, foi apenas há 22 anos. E não estou a falar de controlar regiões despovoadas ou tecnologicamente atrasadas, isso é para meninos.

O que montámos na Ásia foi no quintal dos outros, na marra, sozinhos, em oposição aos interesses das potências que superintendiam o negócio das especiarias, a mais de 10.000 km de casa, distâncias percorridas em anos de viagem com uma logística rudimentar, sem muitos aliados e nenhuma familiaridade cultural, antes pelo contrário: foi desbravar um mundo desconhecido e hostil, entregues à própria sorte, contra tudo e contra todos, num atrevido desafio ao destino. Em mais de 8 séculos de História nunca parámos quietos, primeiro em casa, seguidamente pelo mundo.

E depois deste épico passado eis-nos chegados ao século XXI em que observo três operários encostados a um varandim, cada um munido da sua Sagres Mini e máscara presa nas orelhas a tapar a base do queixo. Quiçá devido ao número e ao aspecto fizeram-me lembrar os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal do conto “O tesoiro” de Eça de Queirós.

Um deles, claramente o macho alfa do grupo, vou-lhe chamar Rui, falava mais alto e assertivamente que os outros. O tema era o do momento e pareciam muito chateados com… nem sei, o universo? Apesar do tom agressivo o alfa Rui tantas vezes frisou a palavra “conovários” que acabei por perceber (sim, sou lerdo) que era uma piada. Não sei se foi ele o criador ou se esse bom trocadilho anda aí também viral; de qualquer modo apossou-se dele, repetindo-o como aqueles tipos que depois de contar uma anedota e toda a gente rir, seguram no braço do que riu menos, salientam enfaticamente as frases-chave e explicam-nas para que o outro não se perca a saborear a polpa sem chegar ao caroço da piada.

Dizia o Rui: “Isto das vacinas é só dinheiro gasto sem anexo… Vão mas é admoestar pulgas, pááá! Quais cuidados? Quem tiver de apanhar vai apanhar, é assim”. Um deles, julgo que Guannes, respondeu algo imperceptível, somente distingui a palavra “não-sei-quê-dezanove!” O Rui voltou à carga: “- quando foi a SIDA ninguém teve medo, depois foi aquela merda do não sei quê não sei que mais, ninguém teve medo, agora toda a gente tem medo… Puta que pariu esta merda.”

Por maior que seja o apelo onírico da nossa epopeia histórica convém nunca esquecer que ela se realizou por causa da ambição de elites, geralmente rudes, e sustentada na força do desespero de um povo ainda mais rude, de Sagres na mão… Podemos contrapor “ah e tal, não sei quê, não sei que mais” mas não há volta a dar, a realidade acorda à estalada os mais eruditos delírios: os três irmãos de Medranhos do século XXI são os mesmos que erigiram o Império. A diferença é que dantes morriam a pelejar contra o turco, agora morrem sem conhecer a face do inimigo.

E é talvez pela secular fuga à opressão que hoje o valente português pedreiro de impérios, nascido entre reinos inimigos, fazendo-se à vida contra tudo e contra todos, com 900 anos de sangue, suor e lágrimas gravados na hélice de informação genética, vai no seu passeio higiénico a desafiar o confinamento e é barrado por um agente policial que pergunta “onde é que o senhor vai?” sinta legitimidade para responder: “- onde vou? Onde é que eu NÃO vou?”

*Músico e embaixador do Plataforma

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