É do c*** - Plataforma Media

É do c***

Se a Língua Portuguesa fosse uma religião, a palavra “caralho” seria o diabo. É difícil explicar a um estrangeiro porque é tão pesada, proibida nas regras de conversação, e ao mesmo tempo vulgar. Nunca perdeu características de bomba atómica, no entanto ouve-se o seu estrondo tantas vezes que nem eu entendo porque continua a ser lançada em profusão. Tem correspondência em todas as línguas românicas da Península Ibérica, constituindo-se curiosamente um exclusivo desta região, embora sem a mesma carga negativa fora do português de Portugal. A origem etimológica continua em discussão, os especialistas propõem várias hipóteses do celta ao grego. Uma das mais prováveis sugere que tenha vindo do latim vulgar caraculum, e será um diminutivo do grego charax (καραξ), significando estaca. Este termo partilha a mesma raiz etimológica de “carácter”, do grego charácter. De qualquer modo a Real Academia Espanhola atribui-lhe origem incerta. Certa é a sua profusa utilização desde o século X, geralmente de forma obscena (fora de cena), desafiadora e antroponímica, aparecendo em várias cantigas de escárnio e maldizer, bem como numa carta de perdão régio lavrada por D. Afonso V. No século XV o caralho designava igualmente um cesto que se situava no alto dos mastros das caravelas de onde os marinheiros perscrutavam o horizonte em busca de terra. Também era considerado um lugar de castigo para os que cometiam infracções a bordo; o castigado era enviado para cumprir horas ou dias de penitência no caralho, e quando descia ficava tão enjoado pela oscilação no topo dos mastros que se mantinha sossegado por algum tempo. Daí talvez tenha surgido a expressão “-vai p’ro caralho” (o mastro com a cesta na ponta), ou a conotação sexual de “ir ao castigo”. A naturalidade com que se falava de “caralho” desaparece da literatura após a contrarreforma.

No tempo dos descobrimentos o caralho não seria de facto o inferno mas um purgatório, o equivalente ao actual “caraças”. Quando mandamos alguém para o caraças não estamos a condenar essa pessoa a um sítio terrível do qual nunca sairá; o caraças é light, o purgatório donde se regressa purificado após a expiação dos pecados. Hoje sim, o caralho tornou-se o inferno. E o que é o inferno? Uma espécie de ferro-velho onde vai parar tudo o que morre, se parte, ou extravia. Se eu quebrar um copo, para onde é que ele vai? Exactamente, p’ro caralho. Então se o caralho é o inferno, o diabo será aquele gajo que lá está a guardar o ferro-velho. Por algum motivo a maior parte das ilustrações não religiosas do diabo mostram-no de caralho pendurado. Este personagem é descrito como o senhor da matéria, razão de todos os pecados, e a figura omnipresente dum caralho nas suas representações pictóricas acrescenta-lhe sempre um toque de rufia, bad ass. Será o Hades da cultura grega, e os Carontes, os barqueiros que acompanham o objecto ou ser até ao inferno, são os porcos: “-sabias que morreu o actor que fez aquela série… -Sim, foi c’os porcos”. Subentende-se que os porcos acompanham o defunto até ao caralho.

A maior parte dos países adoptou o padrão francês de medidas, metro, litro, quilograma. Os ingleses, gente desconfiada que não gosta de se misturar com os continentais, continuam a usar polegadas, pés, pedras, galões, jardas, bojardas… Ora bem, Portugal é uma país único, de espírito universalista, e então eu propunha que apresentássemos ao mundo a nossa própria medida unificadora de comprimento, peso, densidade, quantidade e por aí fora. Seria o primeiro passo em direcção à convergência entre a física clássica e a física quântica, o passo que tem um Nobel reservado para o seu autor. Esta medida existiria para prover muito mais do que a simples medição material daquilo que nos rodeia, serviria também para medir a subjectividade, estados de alma, etc. Que medida é essa? O caralho. Esta é a medida mais genérica que existe, com ele tudo é mensurável, desde o pequeno ao grande, do perto ao longe, do bonito ao feio, do mau ao bom, da física à metafísica, enfim, o caralho vai do Alfa ao Omega. 

Portugal devia começar por organizar a “Convenção do Caralho”. Depois de discutido e estabelecido em todas as suas vertentes, o novo padrão integrar-se-ia no Bureau Internacional de Pesos e Medidas. Fazendo jus ao seu carácter ibérico, português, singular, o Estado criaria o “Instituto do Caralho” que se dedicaria a estudar e desenvolver todas as aplicações da nova medida. Construir-se-ia um edifício em Lisboa na zona de Belém porque é lá que estão todos os monumentos que são do caralho; a obra seria adjudicada ao arquitecto Tomás Taveira para podermos dizer que o edifício era feio p’ra caralho, e lá dentro, na sala principal, uma redoma grande c’umó caralho, ou seja, com ele todo lá dentro. Para doutrinar novas consciências de índole lusitana o Estado promoveria a substituição das medidas em todos os manuais escolares. Assim por exemplo, em Filosofia, as correntes filosóficas poderiam ser classificadas de “complicadas c’umó caralho”, em Português, o acordo ortográfico resumir-se-ia a um “estúpido c’umó caralho”, e nas Ciências Proxima Centauri, a estrela mais perto do Sol que fica a 4,22 anos-luz, passaria simplesmente a ser “longe p’ra caralho”. No fundo este padrão faz parte da nossa maneira quotidiana de estar há tantos séculos, foi aliás com ele que inventámos novas raças e fodemos tantos povos, porque não assumi-lo no sentido de fazermos as pazes com o passado, lançando as sementes do futuro?

*Músico e embaixador do Plataforma

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