Santo Tirso: a culpa não pode morrer solteira - Plataforma Media

Santo Tirso: a culpa não pode morrer solteira

Não é possível trazer de volta as dezenas de cães que morreram carbonizados e em agonia no terrível incêndio que atingiu dois abrigos de animais na Serra da Agrela, em Santo Tirso, em Julho de 2020, mas podemos e devemos apurar responsabilidades, perceber o que correu mal naquele dia e tomar medidas para que situações como aquela não voltem a acontecer no nosso país.

Diante de um incêndio que vitimou de forma cruel aqueles animais, deixando feridos tantos outros, rapidamente se gerou uma impressionante mobilização cívica que, esta sim, permitiu salvar a vida a tantos animais, emocionou o país e o mundo, mas também pôs a nu  as fragilidades inaceitáveis no nosso sistema de Protecção Civil. Em face da passividade com que as autoridades reagiram ao perigo iminente em que se encontravam aqueles animais, desprotegidos, muitos deles acorrentados e sem qualquer hipótese de fuga, na memória de quem lá esteve ficarão para sempre imagens de terror, aflição e de inaceitável sofrimento.  Muito mais devia ter sido feito por quem tem o dever de proteger vidas e não era preciso assim tanto para evitar o desfecho trágico a que todos assistimos.

Mas se, infelizmente,  não podemos voltar atrás no tempo, podemos e devemos, sim, continuar a exigir que sejam apuradas responsabilidades por aquelas mortes, mesmo depois das questionáveis  conclusões do inquérito feito pela Inspeção-Geral da Administração Interna, as quais a ninguém deve satisfazer.  A culpa não pode, mais uma vez, morrer solteira.

Contudo, não parece ser esse o entendimento oficial: “Não tem de haver culpados” no incêndio que matou cães em Santo Tirso, afirmou a Secretária de Estado da Administração Interna na Assembleia da República, na audição que decorreu nesta semana na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias a requerimento do Grupo Parlamentar do PAN – Pessoas-Animais-Natureza. Disse-o como se o país não tivesse sido todo ele testemunha de um cenário em que pessoas de vários pontos do país se mobilizaram e foram incapazes de ficar indiferentes ao desespero dos animais, que, mesmo apesar da ameaça de novo incêndio, foram incompreensível e inaceitavelmente mantidos presos no local, ao invés de se ter procedido à sua imediata evacuação.

Mesmo na eventual impossibilidade de evacuar todos os animais, o caminho teria de ser o de abrir os portões, soltar os animais e dar-lhes pelo menos uma oportunidade de fugir das chamas.

É incompreensível que as autoridades se tenham colocado ao lado das proprietárias dos abrigos para animais, cujo historial de denúncias por maus tratos era conhecido, e que, perante a sua impassividade, tenham deixado os animais morrer de forma agonizante.

É também da maior falta de sensibilidade dizer que não há culpados! Não podemos aceitar que alguém com responsabilidades governativas, o diga! Falhámos todos para com estes animais, essas criaturas vivas a quem frequentemente apelidamos como “nossos melhores amigos” e para com quem temos um dever moral, mas também legal de prestar auxílio.

Sem admitir os erros que foram cometidos, dificilmente se tiram lições para que num futuro não voltem a acontecer episódios desses. É preciso garantir, adaptando os planos de protecção civil e proporcionando a devida formação a quem actua no terreno, que somos capazes de agir neste tipo de situações, em articulação com as autoridades veterinárias, com vista a socorrer os animais.

Já dizia Saint-Exupéry “tornas-te eternamente responsável pelo que cativas”. Cabe-nos, pois, garantir que uma tragédia como a de Santo Tirso não se voltará a repetir.

*Líder parlamentar do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) – Portugal

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